Em cada reunião do G7, esse seleto grupo das sete economias mais industrializadas do mundo, define-se muito mais do que o que consta nos seus comunicados oficiais. Para os países do Sul Global, como Angola, o que ali se decide tem impacto real, concreto e diário: é o preço do pão amanhã, a flutuação da moeda, o custo do transporte colectivo, a taxa de desemprego, a pressão sobre o crédito e até a qualidade do arroz que chega ao prato das famílias.
Esses encontros, normalmente realizados em ambientes luxuosos e à porta fechada, discutem temas de alta política: segurança energética, alterações climáticas, conflitos armados, inteligência artificial e estratégias de crescimento económico. Mas o eco dessas decisões, por mais distantes que pareçam, atinge com precisão a banca informal no Rocha Pinto, os agricultores de Calandula, os mototaxistas de Viana e os estudantes da Universidade Mandume.
Basta uma frase mal colocada sobre “instabilidade no fornecimento global de petróleo” para, no dia seguinte, as filas nos postos de abastecimento de Luanda se tornarem quilométricas. Uma tensão diplomática entre duas potências pode, em menos de uma semana, desvalorizar o kwanza, aumentar os custos da dívida pública e forçar cortes orçamentais. Ou seja, o Sul não apenas ouve: sente. E sente com intensidade.
Angola, como muitos países africanos, é inserida na economia global de forma assimétrica: exporta matérias-primas, importa quase tudo o resto. Isso torna o país refém de decisões externas. Um subsídio agrícola aprovado na Europa, por exemplo, afecta o preço do milho que se vende no nosso mercado. Um aumento das taxas de juro nos Estados Unidos encarece o crédito para pequenos empresários em Luanda. Um bloqueio a exportações de fertilizantes afecta directamente a produção agrícola no Bié.
No Sul, espera-se. Espera-se por aprovação de fundos, por renegociação da dívida, por doações, por “assistência técnica”, por projectos-piloto, por cooperação multilateral. A espera, contudo, não é escolha, é consequência da dependência. Somos frequentemente actores secundários num palco onde os protagonistas já entram em cena com o “script”pronto. E o mais curioso é que, por vezes, somos chamados a representar… mas sem direito a escrever nenhuma linha.
O resultado é que se fala muito de “parcerias estratégicas”, “planos de resiliência”, “agendas sustentáveis”enquanto as estradas continuam esburacadas, os hospitais carentes, e os jovens sem oportunidades. Os discursos estão cada vez mais alinhados com os relatórios das Nações Unidas, mas cada vez mais distantes do chão batido da comuna. Os orçamentos ficam mais técnicos, mas a vida quotidiana permanece instável.
Isto não é um grito de revolta, mas um convite à reflexão: que lugar o Sul ocupa nas decisões que moldam o mundo? Quando o G7 fala de “estabilidade global”, que África está contemplada nesse conceito? Quando se fala de segurança alimentar, onde está o reconhecimento do saber tradicional das camponesas africanas? Quando se decide congelar activos de países “em risco”, quem protege os que vivem da ajuda humanitária que, por consequência, não chega?
Há sinais de mudança. Angola tem-se afirmado no contexto regional e internacional com mais maturidade diplomática. Temos quadros preparados, economistas atentos, organizações civis mobilizadas. O desafio é transformar essa capacidade em presença real e eficaz nos espaços de decisão. Mais do que reagir, é preciso propor. Mais do que adaptar, é preciso liderar. Mais do que esperar, é preciso construir.
O futuro do continente africano não pode depender eternamente de cimeiras alheias. É preciso fortalecer as nossas próprias plataformas regionais, integrar os nossos mercados, proteger as nossas indústrias emergentes e valorizar o saber local. O mundo globalizado não precisa ser um jogo de perdas para uns e ganhos para outros. Pode e deve ser uma construção colectiva de justiça e dignidade.
Mas, para isso, é necessário que o Sul fale com voz firme, com propostas claras e com a autoridade de quem conhece as suas próprias necessidades. E que, ao falar, seja ouvido. Porque enquanto o G7 fala e o Sul espera, milhões continuam a viver entre a promessa e o esquecimento. E esse é o tipo de silêncio que nenhum fórum internacional deveria ignorar.




