Há derrotas que diminuem uma nação. Outras revelam a grandeza que ela sempre transportou. A da República Democrática do Congo diante da Inglaterra pertence à segunda categoria.

O apito final encerrou uma campanha memorável no Mundial, mas não silenciou o que verdadeiramente aconteceu durante aquelas semanas: um país voltou a reconhecer-se. Cinquenta e dois anos depois, o Congo regressou ao maior palco do futebol mundial e, por alguns dias, as fronteiras deixaram de ser linhas traçadas nos mapas para se transformarem num único sentimento de pertença.

Em Kinshasa, Lubumbashi, Goma, Kisangani, Mbuji-Mayi, Kananga, Bukavu, Matadi e em tantas outras cidades e localidades, o relógio parecia obedecer ao calendário do Mundial. As ruas esvaziavam-se antes dos jogos. As vozes enchiam casas, cafés e praças. As crianças vestiam as cores da selecção nacional, os adultos recordavam gerações passadas e os mais velhos voltavam a falar de um tempo que muitos julgavam distante. Durante noventa minutos, o país respirava ao mesmo ritmo. Mas o Congo não estava apenas dentro das suas fronteiras.

Estava nos bairros africanos de Joanesburgo, nas ruas de Bruxelas, nos arredores de Paris, em Londres, Lisboa, Luanda, Montreal e em tantos outros lugares onde vivem milhões de congoleses. A diáspora reencontrou uma parte da sua identidade diante de um ecrã. Muitos dos que partiram há décadas sentiram-se novamente próximos da terra onde nasceram. O futebol conseguiu aquilo que a política, tantas vezes, ainda procura alcançar: unir pessoas separadas por oceanos, fronteiras e circunstâncias. É precisamente por isso que esta campanha não deve ser analisada apenas pelo resultado frente à Inglaterra.

Ela possui um profundo significado social. Num país que enfrentou guerras, deslocações forçadas, crises humanitárias e enormes desigualdades, a selecção nacional ofereceu algo raro: uma narrativa comum, capaz de reunir diferentes povos, culturas, gerações e sensibilidades em torno da mesma bandeira. Durante aqueles dias, pouco importavam as diferenças. O que prevalecia era o orgulho de ser congolês.

Há igualmente uma dimensão política que merece atenção. Sem discursos, sem promessas e sem campanhas, a selecção recordou aos decisores públicos que o desporto também constitui uma política de Estado. Quando existe investimento, organização e visão estratégica, o talento transforma-se em resultados; os resultados fortalecem a autoestima colectiva; e essa confiança altera a forma como um país é visto pelo mundo.

Existe ainda uma dimensão económica frequentemente esquecida. Cada participação num Mundial aumenta a visibilidade internacional, atrai patrocinadores, valoriza os atletas, fortalece a indústria do desporto, estimula o turismo, impulsiona o comércio e cria novas oportunidades para milhares de jovens que passam a acreditar que o talento pode abrir portas onde antes apenas existiam limitações. Contudo, talvez seja a dimensão histórica a que mais emociona.

Durante cinquenta e dois anos, o Mundial foi apenas uma memória distante para os congoleses. Uma geração inteira nasceu, cresceu e envelheceu sem ver a sua selecção entre as maiores do planeta. O regresso não apagou esse longo silêncio, mas colocou-lhe um ponto final. A história voltou a caminhar.

A derrota diante da Inglaterra não destruiu esse feito. Apenas recordou uma verdade que o desporto nunca deixou de ensinar: as grandes equipas também são construídas nas derrotas. Nenhuma potência do futebol chegou ao topo sem antes conhecer o sabor da eliminação.

Talvez o maior triunfo do Congo não tenha sido vencer jogos nem ultrapassar fases da competição. Talvez tenha sido devolver esperança a milhões de pessoas. Fazer uma criança acreditar que um dia também poderá vestir aquela camisola. Fazer um emigrante sentir que continua ligado à sua terra. Fazer um povo recordar que ainda é capaz de escrever páginas de grandeza.

Os campeões erguem troféus.

As nações também se erguem através dos símbolos que partilham.

O Congo deixou o Mundial.

Mas saiu maior do que entrou.

Porque há derrotas que encerram competições.

E há derrotas que inauguram uma nova página da História.