Em entrevista ao Diário 94, o fotógrafo angolano Gabriel Oliveira, actualmente sediado em Lisboa, falou sobre o seu percurso, a ligação à música, o trabalho com artistas angolanos na diáspora e a ambição de contribuir para a preservação da memória cultural do país.

Para o jovem fotógrafo, cada imagem pode ser mais do que um retrato de um espectáculo: pode tornar-se um documento sobre uma geração e sobre a forma como a cultura angolana atravessa fronteiras.

A relação de Gabriel Oliveira com a fotografia começou de forma quase espontânea. O interesse pela imagem já existia, mas foi em 2025, quando começou a fotografar momentos e eventos na igreja por incentivo do seu pastor, que percebeu que a fotografia poderia transformar-se numa profissão.

O momento decisivo surgiu pouco depois, quando teve a oportunidade de fotografar profissionalmente um concerto de Edmázia Mayembe no Coliseu. A experiência colocou-o perante uma realidade diferente daquela que conhecia e ajudou-o a perceber que queria levar a fotografia a sério.

“Comecei na igreja, mas rapidamente percebi que a fotografia podia levar o meu olhar muito mais longe”, afirma.

Entre o instante e a pessoa

A música ocupa um lugar particular no percurso do fotógrafo. Crescido num ambiente onde a kizomba e o semba faziam parte do quotidiano, Gabriel encontrou nos concertos um território familiar, mas simultaneamente imprevisível.

É precisamente essa imprevisibilidade que o atrai.

Num espectáculo ao vivo, uma expressão, um gesto, uma luz ou uma reacção do público podem desaparecer em poucos segundos. O trabalho do fotógrafo passa, por isso, por observar, antecipar e reconhecer o momento antes que ele desapareça.

No retrato, a abordagem é diferente. Há mais tempo para procurar aquilo que está para além da imagem pública do artista.

“No palco procuro o instante. No retrato procuro a pessoa.”

É uma distinção que ajuda a compreender a abordagem de Gabriel: não se trata apenas de produzir imagens tecnicamente correctas, mas de encontrar emoção e autenticidade.

Fotografar a diáspora é também preservar uma história

Sediado em Lisboa, Gabriel tem acompanhado artistas angolanos na diáspora, num contexto em que a música se transforma também numa forma de ligação à terra de origem.

Para o fotógrafo, registar estes momentos significa contribuir para que a cultura angolana tenha memória para além das suas fronteiras.

Yasmine - Local: Sunkiss 2026

Concertos de artistas angolanos em cidades europeias não representam apenas espectáculos. São também momentos de encontro entre comunidades, gerações e referências culturais.

“Para mim, fotografar isso é também documentar a diáspora”, explica.

A preocupação com a memória está no centro do seu trabalho. Gabriel acredita que, dentro de 20 ou 30 anos, imagens hoje produzidas poderão ajudar a compreender quem eram os artistas, como eram os espectáculos e de que forma a música angolana estava presente na Europa.

A fotografia, neste sentido, deixa de ser apenas registo artístico e passa a assumir uma dimensão documental.

“Quando um momento não é documentado, ele não deixa necessariamente de ter acontecido”

Para Gabriel Oliveira, a importância da fotografia está também na capacidade de preservar detalhes que a memória humana inevitavelmente perde.

Uma fotografia de concerto pode parecer, no presente, apenas mais uma imagem de um espectáculo. No futuro, porém, pode adquirir outro significado: tornar-se parte do arquivo visual de uma época.

“Quando um momento não é documentado, ele não deixa necessariamente de ter acontecido, mas pode deixar de fazer parte da memória colectiva.”

É essa perspectiva que faz com que o fotógrafo procure ir além do momento principal do espectáculo. Nem sempre a imagem mais importante está no centro do palco, sob as luzes. Pode estar num gesto, numa reacção do público ou num segundo de silêncio. O objectivo é encontrar aquilo que revela emoção.

Paulo Flores, Pérola, Anna Joyce e outros nomes

Ao longo do seu percurso, Gabriel já fotografou artistas como Paulo Flores, Pérola, Edmázia Mayembe, Anna Joyce e Telma Lee.

Pérola - Local: Festival festeja 2026

Entre as experiências mais marcantes está precisamente o concerto de Edmázia Mayembe no Coliseu, não apenas pela dimensão do espectáculo, mas por representar o primeiro passo profissional do fotógrafo.

Já fotografar artistas como Paulo Flores acrescenta outra dimensão ao trabalho. São figuras cuja música atravessa gerações e ocupa um lugar relevante na história cultural angolana.

Edmazia Mayembe - Local: Festival Festeja 2026

Para Gabriel, fotografar esses artistas significa também reconhecer o peso cultural das pessoas que estão diante da sua objectiva.

O desafio do acesso e do reconhecimento

Apesar do crescimento da sua actividade, trabalhar com artistas na diáspora apresenta desafios.

Um dos principais é o acesso. Segundo Gabriel, nem sempre existe uma estrutura clara de relacionamento entre artistas, equipas, promotores, imprensa e fotógrafos. Muitas oportunidades continuam a depender de contactos pessoais e da confiança construída ao longo do tempo.

O fotógrafo procura responder a esse desafio através da consistência: entregar trabalho de qualidade, respeitar os artistas e as suas equipas e construir relações profissionais.

“Acesso pode abrir uma porta, mas é o trabalho que determina se continuamos dentro dela.”

Uma cultura que precisa também de ser documentada

Na diáspora, a música angolana pode funcionar como uma ligação emocional a Angola. Um concerto pode transformar-se num ponto de encontro para pessoas que vivem longe do país, mas que reconhecem nas músicas, expressões e referências culturais uma parte da sua identidade.

Gabriel considera, no entanto, que ainda existe espaço para que a cultura angolana seja documentada e apresentada internacionalmente com maior dimensão.

Nair Nany - Local: Ministração na igreja MIF Lisboa

E essa responsabilidade, na sua perspectiva, não pertence apenas aos músicos.

Fotógrafos, jornalistas, realizadores, escritores e outros criadores também têm um papel na construção do arquivo cultural de uma sociedade.

“Não basta produzir cultura. Também precisamos de preservar e contar a sua história.”

Um olhar que reconhece aquilo que fotografa

Uma das particularidades que Gabriel identifica no seu trabalho é o facto de conhecer, por experiência própria, parte da realidade cultural que documenta.

Há gestos, referências, músicas e emoções que não precisam de ser explicados porque fazem parte do seu próprio percurso.

Para o fotógrafo, isso cria uma diferença entre simplesmente observar uma cultura e reconhecê-la.

“Quando fotografo determinados artistas ou públicos, muitas vezes não estou a descobrir aquilo que está à minha frente. Estou a reconhecer algo que também faz parte da minha história.”

O conselho aos jovens fotógrafos angolanos

Aos jovens que pretendem construir uma carreira na fotografia, Gabriel deixa uma recomendação simples: começar com os recursos disponíveis.

Esperar pela melhor câmara, pela oportunidade perfeita ou pelo contacto certo pode significar perder anos. Para ele, o mais importante é fotografar, construir uma identidade e aprender a apresentar o próprio trabalho.

Talento, defende, não é suficiente.

Disciplina, profissionalismo, respeito pelas pessoas e capacidade de continuar a trabalhar mesmo quando não existe reconhecimento imediato são igualmente importantes.

E há outro princípio que considera fundamental: não tentar ser uma cópia de outro fotógrafo.

“A câmara pode ser igual. O olhar nunca precisa de ser.”

Os planos de Gabriel Oliveira não terminam na fotografia.

Um dos seus principais objectivos profissionais é criar a própria agência, reunindo gestão de redes sociais, fotografia e vídeo. A intenção é construir uma estrutura capaz de integrar diferentes talentos e ajudar pessoas e marcas a contar melhor as suas histórias.

Existe, contudo, uma ambição de natureza diferente.

No futuro, Gabriel quer contribuir para que crianças e jovens com talento, mas com poucos recursos, tenham acesso a ferramentas, formação, acompanhamento e oportunidades.

A ideia nasce da percepção de que muitos sonhos não são abandonados por falta de capacidade, mas pela ausência de condições para os desenvolver.

“Se conseguir chegar onde pretendo, quero que aquilo que construir também sirva para abrir portas para quem vem depois de mim.”

A frase que encerra a entrevista resume, talvez, a dimensão mais humana do seu projecto:

“Há sonhos que não morrem por falta de talento. Morrem por falta de oportunidade.”

Entre a fotografia de palco, o retrato e a documentação da diáspora, Gabriel Oliveira está, assim, a construir um percurso que procura fazer mais do que congelar imagens. O seu trabalho procura preservar momentos, pessoas e manifestações culturais que, sem registo, poderiam perder-se na passagem do tempo.